
É interessante notar que ao falarmos de planejamento familiar com os casais e adultos com os quais tenho trabalhado, o tema ora tende a ser considerado um tabu intocável carregado de silêncios difíceis e doloridos, ora, contrariamente, tende a ser visto como um tema óbvio demais na constituição da família e, portanto, naturalmente vivido entre os casais, dispensando reflexões. Mas, poucos têm a consciência de que o planejamento familiar, no Brasil, é um direito sexual e reprodutivo conquistado ao longo de décadas e diversas transformações socioculturais e que passa, necessariamente, por uma reflexão individual de vida.
Muitos devem se lembrar, até porque isso não desapareceu completamente, que as decisões de ter ou não ter filhos eram atribuídas aos desígnios divinos e às regras da natureza. As mulheres detinham o papel exclusivo de reprodução da família e nenhum controle sobre os próprios corpos, sendo o “ser mãe” sua função natural e incontestável. Ao longo dos anos, esta perspectiva foi se transformando com a mulher passando a exercer muitas funções que excediam o limite do território doméstico. Ela trouxe para casa um salário, para si um acúmulo de funções e para o lar uma redução de sua presença. O que tornou ainda mais difícil o cuidado de muitos filhos.
A mulher passou a ser um ator político ao participar dos movimentos sociais pela conquista dos direitos de cidadania e de reprodução. Junto a isso, o avanço farmacológico com a produção de anticoncepcional “liberou” a mulher, possibilitando um controle sobre a sexualidade e a reprodução. A reprodução tornou-se passível de intervenção e escolha individual. Conquistamos o direito de escolha e o dever de sermos responsáveis pelo nosso comportamento sexual e suas consequências.
Atualmente, todavia, os casais lidam com o planejamento familiar limitando o assunto à escolha da contracepção. A separação da responsabilidade feminina de ir ao médico para decidir qual método usar na prevenção de gravidez, da responsabilidade masculina de decidir sobre a vida sexual, ou seja, quando, quanto e como irá ocorrer a atividade sexual. Cabe a mulher prevenir gravidez e ao homem decidir o momento da sexualidade.
Enfim, para longe de ser uma escolha pura e simples de qual método usar na anticoncepção, planejar uma família é refletir os objetivos pessoais e conjugais e as maneiras de se realizar as metas refletidas corresponsavelmente para atingir o bem estar da família. É pensar sobre os desejos pessoais, buscar a saúde sexual do casal e as informações sobre as doenças e suas prevenções conjuntamente. Não é dar a um ou outro o encargo individual de escolher pela concepção ou contracepção, mas é realizar diariamente o comprometimento compartilhado da responsabilidade de se cuidar e planejar uma família.
(*) Cynthia Dalge Alarcon de Toledo • Psicóloga formada pela PUC-SP. - • CRP 0681404• Psicóloga da Fundação Casa de São Paulo, homologada em Junho de 2010, na regional do Vale do Paraíba. Atendimentos agendados pelo fone (12) 8111.9317 • Av. Gov. Carvalho Pinto, 270- sala 04 - Santo Antonio do Pinhal - SP. MANDE SUAS DÚVIDAS: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .



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